Do Cruzeiro do Sul para Cuba: cineasta aparecidense Aristótelis Tothi conquista bolsa internacional

Aristótelis Tothi
Foto: Tothi

Criado em uma família que vive há mais de 50 anos no mesmo endereço em Aparecida de Goiânia, Aristótelis Tothi conta ao Portal Aparecida como construiu sua carreira no cinema e chegou a uma das mais reconhecidas escolas de audiovisual da América Latina.

Antes de conquistar uma bolsa internacional para estudar cinema em Cuba, Aristótelis Tothi, de 36 anos, era um menino que passava as tardes jogando bola e empinando pipa nas ruas do bairro Cruzeiro do Sul, em Aparecida de Goiânia. Foi na Rua do Cafezal, onde sua família vive há mais de cinco décadas, que ele cresceu e construiu as primeiras lembranças de uma trajetória que agora ganha um novo capítulo fora do Brasil.

O cineasta foi selecionado para cursar a XIII Maestría em Escrita de Roteiro Audiovisual na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños (EICTV), em Cuba. A oportunidade foi conquistada por meio de uma bolsa do Projeto Paradiso, que cobre os custos da formação, passagens aéreas e oferece ajuda financeira para a permanência no país.

Em entrevista exclusiva ao Portal Aparecida, Aristótelis relembrou a infância na cidade, contou como entrou no mercado audiovisual quase por acaso e falou sobre os desafios de construir uma carreira artística.

Uma infância marcada pelas ruas do Cruzeiro do Sul

A história da família de Aristótelis em Aparecida começou na década de 1970, quando seus avós chegaram ao Cruzeiro do Sul, ainda durante a formação do bairro. Desde então, o endereço da família permanece o mesmo.

“Há mais de 50 anos o endereço da família continua sendo na Rua do Cafezal. Foi nessa mesma rua que passei toda minha infância, adolescência e juventude”

As lembranças daquela época são de uma vizinhança onde quase todos se conheciam. Depois da escola, a diversão acontecia nas ruas, entre partidas de futebol, pipas e brincadeiras com os amigos.

“Na nossa rua tinha uma turma muito grande, um mais terrível que o outro e quando juntava todo mundo era o terror dos vizinhos”

As festas juninas também marcaram sua infância. Os moradores fechavam a rua, colocavam bandeirolas, preparavam uma grande fogueira e dividiam a responsabilidade pelas comidas típicas. As comemorações reuniam os vizinhos durante toda a noite.

O cinema surgiu quase por acaso

Apesar da carreira que construiu, trabalhar com cinema não fazia parte dos planos de Aristótelis durante a juventude.

Em 2009, enquanto tentava decidir qual profissão seguir, prestou vestibular para cursos de comunicação social. Não conseguiu aprovação em Publicidade na Universidade Federal de Goiás (UFG), mas foi aprovado no recém-criado curso de audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Ele ingressou na quarta turma, sem conhecer muito sobre a formação. A adaptação foi difícil e chegou a trancar a matrícula por um ano.

O retorno aconteceu em 2011, quando decidiu dar uma nova oportunidade ao curso. Foi nesse período que começou a participar de produções profissionais e receber pelos trabalhos.

Aristótelis se especializou inicialmente em maquinaria, área responsável pela montagem de estruturas utilizadas na iluminação, movimentação e posicionamento de câmeras durante as filmagens.

Além do aprendizado, o trabalho representava uma oportunidade de ajudar financeiramente a família.

Em 2012, participou da criação da Dafuq Filmes, inicialmente um coletivo universitário de audiovisual que, com o passar dos anos, se transformou em produtora e locadora de equipamentos cinematográficos.

Ao longo da carreira, trabalhou em diferentes funções, como assistente de câmera, assistente de direção, técnico de som, microfonista e diretor de produção. Mais recentemente, passou a dedicar maior atenção à escrita de roteiros e à direção.

Entre seus trabalhos estão os curtas-metragens “A Câmera de João” (2017), “Frescor Marine” (2019), “Búfala” (2021) e “Tião Personal Dancer” (2026), além do longa-metragem “Vasta Natureza de Minha Mãe” (2025).

A conquista da bolsa para estudar em Cuba

Aristótelis já acompanhava as oportunidades oferecidas pelo Projeto Paradiso quando decidiu participar da seleção para a escola cubana.

Nesta edição, a bolsa foi destinada a profissionais nascidos nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. O processo exigiu inscrição diretamente na instituição, apresentação de documentos e elaboração de um projeto cinematográfico.

A escolha foi realizada pela coordenação do curso da EICTV – Escuela Internacional de Cine y Televisión.

“Existia sim uma grande expectativa da minha parte, mas é impossível não ser completamente tomado pela feliz surpresa de ser escolhido”

Para ele, a conquista tem um significado que ultrapassa a formação profissional, especialmente por sua origem em uma região periférica e pelas dificuldades enfrentadas ao longo da carreira.

“Estruturalmente há um grande abismo nas políticas de acesso à educação e cultura em nosso país. Quando estamos localizados em regiões periféricas ou do interior, é difícil se projetar em grandes conquistas”

O cineasta também destacou o significado da conquista como homem negro e profissional que precisou superar barreiras sociais.

“Sendo um homem negro e consciente dos desafios impostos pelo racismo, tenho a consciência de que cada movimento de avanço, por menor que seja, pode refletir em minha comunidade, de alguma maneira”

Novo filme abordará paternidade e garimpo

A formação internacional começará em janeiro de 2027 e terá seis meses de aulas presenciais em Cuba, até junho. Durante esse período, Aristótelis participará de atividades de segunda a sexta-feira, nos turnos da manhã e da tarde.

Após retornar ao Brasil, continuará recebendo consultorias online por mais três meses, completando os nove meses previstos para o programa.

O projeto que pretende desenvolver já foi apresentado durante a seleção. Com o título provisório de “Em nossa Glória”, o longa-metragem de ficção abordará a ausência paterna e o universo do garimpo.

A história será ambientada nos dias atuais, em Serra Pelada, no Pará, região conhecida pela intensa exploração de ouro durante a década de 1980.

Os desafios de viver do cinema

Apesar das conquistas, Aristótelis reconhece que manter uma carreira no audiovisual exige enfrentar dificuldades constantes, principalmente relacionadas ao financiamento das produções.

Segundo ele, a continuidade dos projetos depende, muitas vezes, de políticas públicas e mecanismos de incentivo à cultura.

“Como trabalhador da cultura, sempre estamos lutando por políticas públicas que garantam recursos financeiros para desenvolver nossos trabalhos e garantir as nossas existências e dignidade profissional”

O cineasta explica que os editais de incentivo não beneficiam apenas os realizadores, mas também movimentam uma cadeia de profissionais envolvidos nas produções, gerando trabalho e renda.

Uma mensagem para os jovens de Aparecida

Ao olhar para a própria trajetória, Aristótelis reconhece que o cinema parecia uma profissão distante da sua realidade quando era jovem.

Hoje, acredita que o acesso à informação e às tecnologias de produção audiovisual pode facilitar os primeiros passos de quem deseja trabalhar na área.

Ele também destaca que existem muitas profissões relacionadas ao cinema, além das funções mais conhecidas, como direção, atuação e operação de câmera.

Para os jovens de Aparecida que sonham em seguir o mesmo caminho, a orientação é investir em conhecimento, buscar experiências e enxergar a atividade artística como uma possibilidade de carreira.

“Estudar, se organizar e acreditar nisso como uma possível carreira artística e profissional, se torna uma opção possível de vislumbrar”.

A trajetória do cineasta, que começou nas ruas do Cruzeiro do Sul e agora chega a uma escola internacional em Cuba, mostra como o acesso à educação e as oportunidades profissionais podem abrir caminhos inimagináveis para talentos que surgem aqui mesmo na nossa cidade.

Aristótelis Tothi
Tothi com os atores Adílson Maghá, Neusa Borges e Lucas Romão
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