Sombras do subsolo

elevador

Faltavam cinco minutos para as sete da manhã quando eu vi o primeiro deles descer com pressa. A camisa ainda marcada do ferro, a chave na mão, o olhar no chão. Às 7h12, outro saiu logo depois, sem olhar para ninguém. Às 7h30, a primeira assembleia do dia começou onde sempre começa: no hall, em pé, entre o tapete gasto e o cheiro de café vindo do apartamento 302.

Às 8h05, a portaria já tinha ouvido três versões da mesma história. Uma dizia “falta de respeito”. Outra dizia “perseguição”. A terceira dizia “é só seguir as regras”. E o porteiro, com aquela calma de quem já viu briga de vaga, briga de barulho, briga de interfone e briga de cachorro, respondia só com a cabeça — porque no prédio o silêncio costuma ser o único lugar seguro.

Às 9h, o elevador virou palco. Não tinha gente o suficiente para chamar de multidão, mas tinha tensão suficiente para preencher o espelho. Um entrou, o outro entrou depois. Nenhum deu bom dia. O elevador subiu com aquela música de sempre, uma melodia mecânica que tenta fingir civilidade, enquanto as duas pessoas ali dentro ensaiavam, cada uma por dentro, um discurso inteiro.

Às 10h, o grupo do condomínio já tinha feito o serviço mais rápido que qualquer administradora: espalhar o assunto. Em prédio, notícia corre mais que água no ralo. Ninguém sabe ao certo o começo, mas todo mundo sabe o último capítulo. E todo mundo tem uma tese: “ele é autoritário”, “ela provoca”, “ele vigia”, “ela não respeita”, “isso vai dar ruim”, “isso já deu”.

Quem mora em prédio aprende que há lugares onde o tempo tem outro ritmo. O corredor é um. A garagem é outro. E existe um terceiro, o mais esquecido de todos, onde a luz é sempre meio triste e o vento parece não ter direção: o subsolo. Subsolo é a parte da casa onde as coisas vão para desaparecer — bicicleta velha, caixa de papelão, móvel desmontado, conversa que ninguém quer ter.

E é assim que o acúmulo vira risco: não pelo tamanho de um único problema, mas pela soma. O bom dia que não veio, o pedido que virou ordem, a regra que virou arma, a insistência que virou perseguição. Ninguém percebe a linha exata em que o incômodo atravessa para o perigo — só percebe quando já atravessou.

Quando a noite caiu, vi uma moradora emprestar um pouco de calma para a outra no elevador: segurou a porta, deu passagem, cedeu sem fazer barulho. Foi um gesto pequeno, desses que não entram em ata de condomínio, mas que sustentam o mundo mais do que qualquer regimento.

E eu pensei, com a mesma simplicidade que a vida exige quando quer continuar:

— O prédio é de concreto, mas quem impede tragédia é a gentileza.

sebastiao

Escrito Por

Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.

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