Sem posto, sem ronco

sebastiao e carro eletrico

Fim de tarde no bairro tem um jeito próprio de ficar. A luz vai baixando devagar, como se alguém girasse um dimmer invisível no céu, e as casas começam a respirar outra temperatura. O asfalto perde o brilho, o vento aparece de mansinho, e a rua vira esse corredor de pequenas rotinas: portão abrindo e fechando, panela sendo mexida atrás de muro, cachorro escolhendo a sombra mais fresca, gente conversando de longe sem pressa de terminar.

Eu gosto de observar essas horas do dia. Não por falta do que fazer, mas porque a cidade se explica melhor quando ninguém está tentando explicá-la. Do banco da calçada, dá para ver quem volta do trabalho, quem ainda procura serviço, quem passeia sem rumo, quem vive de repetir o mesmo caminho. É nesse horário que o bairro mostra suas manias: a moto que acelera toda vez na esquina, o caminhão do gás com a música insistente, a vizinha que varre a calçada como se estivesse limpando o próprio pensamento.

Foi num desses fins de tarde que eu notei uma coisa diferente — não pelo excesso, mas pela falta. Faltava o barulho.

O carro surgiu lá embaixo, vindo devagar, e eu demorei alguns segundos para entender o que estava estranho. Ele avançava como qualquer outro, só que sem ronco, sem tremor, sem aquela assinatura sonora que a gente aprende a reconhecer desde menino. Era como se estivesse deslizando, obedecendo a uma força discreta. A rua continuou a mesma, mas o ouvido ficou procurando um som que não vinha.

Ele parou na casa da esquina, aquela que vive mudando de coisa na garagem. Desceu um morador, entrou rápido e voltou com um cabo grosso na mão. A cena tinha uma calma quase doméstica: abrir uma portinhola no carro, encaixar o cabo com cuidado, ligar a outra ponta na parede. Pronto. O carro ficou ali, quieto, ligado na casa, como se a garagem tivesse virado posto.

Eu observei tudo de longe, sem me aproximar, porque certas novidades a gente entende melhor assim: primeiro pelo desenho, depois pelo nome. Só depois é que a palavra veio na cabeça com clareza: elétrico. Um carro que não vai ao posto, não tem cheiro de combustível, não anuncia chegada. Um carro que bebe energia da tomada como se fosse coisa antiga.

A rua, curiosamente, não parou para admirar. Uma criança passou de bicicleta e olhou rápido. Uma vizinha atravessou com sacola e nem reparou. Parecia que o bairro tinha aceitado o futuro como aceita chuva fina: sem cerimônia. Mas eu fiquei ali, pensando em quantas coisas mudam sem pedir licença.

Eu não sou homem de tecnologia, mas sempre fui homem de entender funcionamento. E o que me espantou não foi só o silêncio do carro, foi a ideia por trás dele: a mudança entrando na rotina sem fazer alarde. A gente passa a vida inteira associando carro a barulho, a motor, a posto de gasolina, e de repente tem um que faz tudo isso sem parecer que faz esforço.

Quando o portão fechou e a casa engoliu a cena, o carro ficou sozinho na garagem, “carregando” em silêncio. Eu ouvi o bairro voltar ao som normal — moto, conversa, panela, cachorro — e percebi que, no fundo, o novo não chega derrubando o velho. Ele chega do lado, quieto, e vai ficando.

Levantei devagar, sacudi a poeira da calça e entrei. No caminho, aceitei uma verdade simples, dessas que a gente aprende só olhando:

— Tem futuro que chega sem buzina, e só depois a gente percebe que ele estacionou.

sebastiao

Escrito Por

Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.

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