Quando o mundo troca de dono
Por Sebastião Silva- Publicado em
Eu estava sentado, olhando o noticiário sem muita atenção, quando percebi que já não dava para distinguir se aquilo era informação ou um devaneio maluco. Venezuela, prisão de ditador, ameaça externa, caças de guerra, discursos em tom de certeza absoluta. Tudo vindo embalado como se fosse solução rápida, dessas que prometem ordem enquanto espalham medo.
A Venezuela sempre foi apresentada como um aviso. Um país que escorregou devagar para dentro de um regime fechado, onde o poder deixou de ter prazo e a esperança passou a depender de autorização. Durante anos, o discurso foi o mesmo: era preciso derrubar o ditador. Como se tirar um homem resolvesse uma tragédia inteira.
Quando falaram em prisão, confesso que não senti alívio. Senti desconfiança. Porque ditador que cai quase nunca cai sozinho — costuma cair levando o país junto, e abrindo espaço para alguém que chega dizendo que veio salvar, mas não sabe ir embora.
O que me incomodou mesmo foi a naturalidade com que um outro homem, do outro lado do continente, resolveu agir como se fosse dono do tabuleiro. Decisão tomada por ele, anúncio feito por ele, ameaça lançada por ele. Como se o mundo ainda fosse quintal de império antigo. Como se fronteira fosse detalhe. Como se povo fosse cenário.
Existe algo de profundamente irônico nisso tudo. O discurso é sempre o mesmo: libertar, restaurar, proteger a democracia. Mas a forma lembra muito aquilo que dizem combater. Poder concentrado, decisão solitária, força acima do diálogo. A diferença é só o sotaque.
Fico pensando no venezuelano comum. No que acorda cedo, no que tenta atravessar a rua sem saber quem manda naquele dia. Para ele, pouco importa o nome do homem no palácio ou o país da bandeira que sobrevoa o céu. O medo muda pouco. A escassez continua. A vida segue sendo empurrada de um lado para o outro sem consulta.
A história já mostrou que trocar ditador não garante liberdade. Às vezes só troca o uniforme. O discurso muda, a mão continua pesada. A promessa vem nova, mas o chão segue rachado. E sempre aparece alguém dizendo que agora vai dar certo, porque desta vez a força é “do bem”.
Eu aprendi a desconfiar de salvadores que chegam de helicóptero, de porta-aviões ou de microfone aberto. Quem realmente quer ajudar costuma entrar pela porta da frente, conversar baixo e sair cedo. Quem faz muito barulho geralmente quer ser lembrado.
No fim, o que me assusta não é a queda de um tirano. Ditaduras acabam mesmo. O que me assusta é a facilidade com que o mundo aceita que outro homem, em outro país, decida o destino de milhões como se estivesse movendo peça de xadrez.
Porque quando um poderoso age como rei do mundo, o risco não é só trocar um ditador por outro.
É ensinar que, no fundo, o problema nunca foi o trono – foi sempre quem acha que tem o direito de sentar nele para sempre.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
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