Quando a confiança entra em greve
Por Sebastião Silva- Publicado em
Passei em frente ao AparecidaPrev pouco depois das oito da manhã. Não parei de imediato. Primeiro observei de longe, como quem mede a temperatura do dia. Pequenos grupos espalhados, cartazes ainda sendo ajeitados, camisetas de sindicato, gente conhecida de outros tempos.
Às oito e meia, o movimento ganhou corpo. Um carro de som tentou funcionar. Tentou. A voz saiu abafada, depois alta demais, depois certa. O assunto era um só, repetido com números que ninguém ali precisava decorar para entender o peso: quarenta milhões. Dinheiro que não é de ninguém individualmente, mas que, ao mesmo tempo, é de todos. Dinheiro que tem nome escondido: aposentadoria.
Fiquei ali encostado no meio-fio, ouvindo. Um dizia que a aplicação foi feita sem passar por quem deveria passar. Outro falava do Banco Master como quem fala de um parente distante que apareceu do nada numa herança mal explicada. Tinha quem perguntasse “como deixaram?”, e tinha quem respondesse “deixaram porque sempre deixam”. Greve também é isso: um coro de perguntas antigas que só ganham microfone quando algo assusta.
O curioso é como o clima não era de revolta explosiva. Era mais parecido com velório mal resolvido. Ninguém gritava palavrão. Gritava número. Gritava prazo. Gritava responsabilidade. O medo não estava no presente, estava no futuro — esse lugar onde a gente planeja descansar e acaba sendo obrigado a desconfiar.
Às nove, chegaram mais pessoas. Às nove e quinze, alguém distribuiu água. Às nove e meia, um senhor comentou que “trabalhou a vida inteira acreditando que isso aqui era seguro”. Falou sem raiva, o que sempre me pareceu mais perigoso. Raiva passa. Decepção se instala.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, eu sabia que tinham acontecido explicações formais. Câmara, microfone, ata, versão técnica, termos que prometem esclarecimento mas pedem paciência. Aqui fora, a paciência estava em greve também. Porque quem vive de salário aprende cedo que tempo demais corrói mais do que erro.
Eu olhava para aquelas pessoas e pensava que previdência não devia virar protesto. Devia ser invisível, automática, confiável. Quando vira cartaz, alguma coisa falhou antes. Não é normal ter que lutar para garantir o que já foi descontado mês a mês, silenciosamente, durante anos.
Antes de ir embora, vi uma mulher oferecer sombra a outra, puxando-a para perto do prédio. Um gesto simples, quase doméstico, no meio de um assunto grande demais. Aquilo me acertou mais do que qualquer palavra de ordem.
Saí dali com a sensação estranha de quem testemunhou algo que não devia estar acontecendo, mas estava. E fiquei pensando, do jeito que penso quando o assunto é sério demais para florear:
— quando até a aposentadoria precisa entrar em greve, é porque alguém esqueceu que confiança não se aplica em lugar arriscado.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
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