O ronco que mudou a cidade
Por Sebastião Silva- Publicado em
Corrida de moto não começa no semáforo verde. Começa antes, muito antes. Começa no barulho que antecede o barulho, naquele tipo de expectativa que se espalha pela cidade sem precisar de anúncio oficial. A gente percebe quando algo grande está para acontecer porque a rotina muda de leve — não para, mas inclina.
Eu notei isso ainda de manhã.
Passei por um grupo de jovens na calçada, todos falando da mesma coisa, cada um com uma informação diferente: horário, piloto, ingresso, transmissão. Um falava de curva, outro de velocidade, outro só repetia que “hoje Goiânia entra no mapa do mundo”. Ninguém parecia completamente certo de tudo, mas todo mundo parecia certo de uma coisa: não era um dia comum.
Segui andando e, mais adiante, ouvi de novo. Dessa vez na padaria. Um senhor comentava que nunca imaginou ver uma etapa da MotoGP tão perto de casa. Falava como quem mede o tamanho de um acontecimento pelo tempo que esperou por ele. Outro respondia que aquilo não era só Goiânia, não — que mexia com a região inteira, com quem trabalha, com quem vende, com quem vive ao redor.
E aí eu comecei a entender o tamanho daquilo.
Porque não é só corrida. Nunca é só corrida.
É o tipo de evento que muda o eixo da conversa, que traz gente de fora, que faz a cidade aparecer em lugares onde normalmente não aparece. É quando o nome de Goiânia atravessa fronteiras, entra em transmissão internacional, vira referência. E, querendo ou não, Aparecida entra junto. Porque cidade nenhuma cresce sozinha — o que acontece em uma reverbera na outra.
Mais tarde, o som começou a chegar.
Não o som da televisão, mas o som mesmo, distante, cortando o ar. Um ronco contínuo, afinado, quase metálico, diferente de qualquer moto que passa na rua. Era um barulho que não parecia pertencer ao cotidiano — parecia importado, trazido de outro mundo, desses onde velocidade é linguagem.
Eu parei para escutar.
E naquele instante ficou claro que aquilo era mais do que um evento esportivo. Era um marco. Não só pela grandiosidade, mas pelo simbolismo. Goiás, que tantas vezes fica fora das grandes rotas, estava ali, no centro de um espetáculo global. E isso muda a forma como a gente se enxerga também.
Porque, no fundo, eventos assim não mostram só para o mundo quem nós somos. Mostram para nós mesmos.
Mostram que é possível sediar, organizar, receber. Que a cidade pode comportar mais do que o que está acostumada. Que o mapa pode, sim, ser redesenhado.
Quando o som foi ficando mais distante, diluído no vento da tarde, eu segui meu caminho com aquela sensação rara de testemunhar um pedaço de história acontecendo em tempo real — sem cerimônia, sem discurso, só acontecendo.
E pensei, com a simplicidade que sobra quando o momento é grande demais:
— Tem dia que a cidade não só aparece no mapa… ela acelera dentro dele.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
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