O pão, o café e a guerra
Por Sebastião Silva- Publicado em
A televisão da padaria costuma ficar ligada o dia inteiro. Não porque alguém esteja realmente assistindo, mas porque televisão desligada dá a impressão de vazio. Então ela fica ali, falando sozinha para quem quiser ouvir enquanto o café passa, o pão sai do forno e as pessoas entram e saem carregando suas pequenas urgências da manhã.
Eu estava encostado no balcão esperando meu pão francês quando dois homens começaram uma discussão mansa na mesa ao lado. Um falava de futebol, outro insistia em política internacional. Essas conversas sempre começam assim: um assunto puxa outro, e quando a gente percebe já estão discutindo coisas que ficam a milhares de quilômetros dali.
Foi assim que o Irã apareceu na conversa.
Na televisão, o noticiário mostrava mapas coloridos e imagens de cidades que eu não saberia apontar no mapa. Falavam de ataques, de ameaças, de respostas militares. Um comentarista explicava estratégias com a calma de quem descreve uma partida de xadrez.
Na mesa ao lado, os dois homens tentavam entender quem estava certo. Um dizia que certos líderes estavam defendendo o mundo. O outro dizia que estavam provocando uma guerra maior. Cada um falava com convicção, como se estivesse resolvendo um problema de bairro.
Enquanto isso, o padeiro continuava passando manteiga no pão de alguém, uma criança puxava a mochila da mãe e o caixa contava moedas com a paciência de sempre.
O contraste me chamou atenção.
Ali dentro, a vida seguia em pequenos gestos domésticos: café sendo servido, porta abrindo, cadeira arrastando no chão. Lá fora, no mundo grande, homens poderosos discutiam quem deveria atacar primeiro, quem deveria responder, quem deveria mostrar força.
O curioso é como esses discursos sempre aparecem acompanhados de uma justificativa elegante. Falam em segurança, em estabilidade, em proteção do mundo. É sempre em nome de algo maior.
Mas, quanto mais eu escuto esse tipo de argumento, mais me parece que existe uma confiança estranha nesses líderes — uma certeza quase divina de que eles têm o direito de decidir quem deve viver ou morrer para provar um ponto.
E o mais inquietante é que essas decisões quase sempre são tomadas muito longe das pessoas que vão pagar o preço.
Enquanto os homens da mesa discutiam o Irã com entusiasmo crescente, o padeiro colocou meu pão no balcão e perguntou se eu queria café também. A vida ali continuava simples, quase silenciosa, como se fosse outro planeta.
Saí da padaria pensando que, no fundo, o mundo talvez fosse um lugar mais seguro se fosse governado por gente que entende o valor de coisas pequenas: uma mesa de café, uma conversa tranquila, uma manhã comum que ninguém quer transformar em tragédia.
Porque quem aprende a respeitar a paz nas coisas pequenas talvez pense duas vezes antes de brincar de guerra nas coisas grandes.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
Vamos falar sobre essa notícia? Mas lembre-se de ser responsável e respeitoso. Sua opinião é importante!
Ninguém comentou ainda. Clique aqui e seja o primeiro!Agenda da Cidade
Mande sua Sugestão!
O Portal Aparecida é de todo Aparecidense. Venha divulgar qualquer novidade da cidade. Mande sua sugestão de matéria, cadastro de evento, vagas de emprego, inauguração de loja ou campanha de caridade pelo nosso WhatsApp:
(62) 93300-1952