O menino do pé trocado
Por Sebastião Silva- Publicado em
O primeiro dia de aula não começa na sala. Começa no portão. Começa no barulho das mochilas novas batendo nas costas, no choro rápido que dura menos que o beijo da mãe, no pai que fica parado um segundo a mais olhando o filho entrar, como quem tenta memorizar aquele tamanho antes que ele mude de novo.
Era cedo. Ainda dava para sentir o cheiro do cimento molhado da calçada. O portão estava aberto e a escola parecia maior do que é, do jeito que toda escola parece no primeiro dia. Criança chega diferente quando tem coisa nova para carregar. O passo muda. A mochila pesa mais — e não só pelo material.
No pátio, uma fila se formava ao lado da secretaria. Não era a fila da entrada, nem a do recreio. Era a fila da entrega. Uniforme dobrado, pacote de caderno, lápis, borracha, régua, às vezes um tênis dentro da caixa. A fila andava aos poucos, num ritmo que misturava ansiedade e organização. Cada nome chamado era um pequeno evento.
— Próximo!
Algumas crianças saíam da fila com o kit completo, abraçando o pacote como se fosse prêmio. Mostravam para os colegas, ajeitavam a mochila ali mesmo, comparavam cores, contavam quantos cadernos vieram. Uma menina abriu o estojo no chão e organizou tudo com um cuidado que não se aprende — se nasce com ele.
Outras crianças olhavam de longe. Não era inveja ainda, era espera. Espera costuma ter um jeito educado de ficar no rosto.
— O seu já veio?
— Ainda não.
Aos poucos, ficou claro que não era para todo mundo. Alguns nomes não eram chamados. Alguns responsáveis perguntavam em voz baixa. Recebiam respostas também baixas: “vai chegar”, “falta esse lote”, “provavelmente nos próximos dias”. Palavra comprida para quem tem aula hoje.
Uma mãe segurava o uniforme do filho que tinha acabado de receber e, ao mesmo tempo, consolava o menino da frente, que não tinha sido chamado. Tentava explicar que não era culpa de ninguém, que ia dar certo. A criança ouvia com atenção de adulto, aquele silêncio sério que criança usa quando sente que não adianta perguntar muito.
Na sala, a professora começou como sempre começa: apresentação, combinados, nome no quadro. Pediu material. Alguns abriram mochilas cheias, papel ainda cheirando a novo. Outros puxaram um caderno antigo, reaproveitado, com folha arrancada e capa de outro ano. Ninguém riu. Criança sabe ser discreta quando aprende cedo.
Na hora da merenda, o cheiro veio antes do sinal. Arroz, feijão, carne, salada. Tudo servido com cuidado, por gente que trabalha rápido, mas não apressado. Alguém comentou que agora tem nutricionista cuidando do cardápio. Era visível. A comida tinha ordem. E quando a comida tem ordem, o dia anda melhor.
Depois do recreio, o pátio se acalmou. Alguns já tinham esquecido o assunto do material. Outros não. Um menino perguntou à professora se amanhã também ia ter fila. Ela respondeu que sim, que estava previsto. “Previsto” é uma palavra que só funciona para quem espera pouco.
O portão se abriu no fim da manhã e os pais voltaram. Uns saíram satisfeitos, outros com aquela sensação conhecida de meio caminho. Ninguém brigou. Ninguém gritou. A escola seguiu funcionando. Mas o primeiro dia já tinha ensinado alguma coisa.
Porque antes da primeira prova, antes da primeira nota, antes até da lição de casa, a criança aprende isso: quando o cuidado chega inteiro, a gente caminha confiante; quando chega pela metade, a gente aprende a esperar — mesmo sem saber por quê.
E esperar, logo no primeiro dia, não deveria fazer parte do currículo.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
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