O Camaleão que sobreviveu
Por Sebastião Silva- Publicado em
Fila de estádio tem um ritmo que parece outro, diferente do resto da cidade. Não é fila de banco, nem de padaria — é fila de gente que carrega expectativa no corpo, na mochila, nos olhos grudados no portão. É uma fila que respira em bloco, que não reclama, só espera, porque quem vai entrar ali carrega mais que ingresso: carrega esperança de temporada inteira, de domingo depois de domingo.
Eu vi essa fila naquela noite no Aníbal, quando a Aparecidense precisava de uma vitória por dois gols para continuar onde sempre pertenceu: na elite do Goianão. O jogo de volta do playoff era aquele tipo de momento em que a cidade inteira se ajeita na cadeira e segura o fôlego.
A chegada dos torcedores tinha uma cadência própria. Às 19h, ainda claro, o fluxo começou devagar, como quem não quer revelar ansiedade. Às 19h30, o estádio começou a encher: camisas, bandeiras, vozes que tentavam se preparar para a espera e, ao mesmo tempo, já tentavam cantar antes de ter música na vitrola. Às 20h, a noite oficializou sua presença como se fosse árbitro marcando mais um minuto.
O Camaleão entrou em campo sem fazer cerimônia. Era como se o time soubesse que aquela permanência pesava mais do que a tabela: pesava no dia a dia da cidade, nos bares, nas oficinas, no comércio, nas histórias contadas no banco da praça. O primeiro tempo foi de ataque — rápido, incisivo — e os gols vieram de maneira quase artística: cabeça na bola, passe longo, cruzamento certeiro, e lá estava o Camaleão marcando mais uma vez no placar.
Enquanto isso, no meu lugar um pouco afastado, percebi que o jogo não era só isso. Era um marcador de tempo que dizia ao bairro: estamos aqui, juntos, certos de que ainda vale a pena acreditar. Torcedor de Aparecidense — e eu sabia disso — não se acostuma com derrota fácil. Aprende a respirar fundo, a aplaudir quando é preciso e a esperar quando é impossível.
No intervalo, a torcida conversava como se dissesse a si mesma: “é agora ou nunca”. Estas palavras — simples, repetidas, quase sussurradas — tinham o peso de uma oração coletiva. Às vezes, o estádio parecia menos um espaço físico e mais um organismo vivo, que se contrai, se expande, se reinventa lote por lote de arquibancada.
Quando o segundo tempo começou e o quarto gol sacudiu o placar, a agitação foi diferente. Não foi euforia solta, foi um suspiro que saiu junto, como um gesto de alívio que passa de homem para homem, de mãe para filho, de amigo para amigo. Porque garantir a permanência não foi só ganhar jogo; foi dizer que a Aparecidense ainda é protagonista da história que se escreve com chute, corrida, defesa e coração.
Ao final, a torcida saiu sem pressa. Era noite, estava quente, e o fluxo de gente revisitou a rua como se estivesse saindo de uma assembleia de esperança reunida. Alguns comentavam nomes de jogadores como se fossem conhecidos de infância — Darlan, Luan, Marcão — e falavam da jogada como se tivessem estado no gramado.
E eu, observando tudo de longe, pensei que aquela permanência era, sim, motivo de orgulho. Mas também de reflexão: orgulho porque resistir nunca é simples; reflexão porque todo torcedor sabe que o coração da cidade espera mais do que limpar o nome na elite. Espera arte, espera constância, espera que o Camaleão não apenas sobreviva, mas viaje para lugares onde a vitória seja tão habitual quanto o café na esquina cedo de domingo.
— Porque ficar na primeira divisão é bom, mas permanecer de vez no imaginário da cidade é o verdadeiro gol que vale mais que qualquer placar.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
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