O ano novo chegou antes de mim

sebastiao

Eu sempre digo que Réveillon bom é aquele que termina cedo. Não porque eu não goste de festa, mas porque, com o tempo, a gente aprende que o melhor da virada é sobreviver a ela sem susto, sem exagero e sem precisar comentar no dia seguinte.

Meus filhos e netos viajaram para o interior. Queriam fugir da bagunça da cidade, buscar silêncio, céu estrelado, essas coisas que só parecem simples quando a gente já está cansado demais para enfrentar estrada. Eu e minha esposa resolvemos ficar. A casa ficava mais calma, e a virada prometia ser tranquila. Pelo menos na teoria.

O plano era simples. Jantar cedo, ligar a televisão, esperar a meia-noite com um copo modesto de sidra e ir dormir logo depois dos fogos. Nada de visita, nada de improviso, nada de exagero. Só que Réveillon, assim como promessa de janeiro, não costuma respeitar plano nenhum.

Por volta das oito da noite, resolvi dar uma última olhada na rua antes de fechar o portão. Foi quando ouvi o primeiro estouro. Não era fogos oficiais, era bombinha mesmo, daquelas que servem exclusivamente para testar o coração de quem não pediu emoção nenhuma. Voltei pra dentro tentando manter a compostura, mas o corpo já tinha entendido: aquele ano novo vinha barulhento.

Às nove, o cheiro de churrasco começou a entrar pela casa sem pedir licença. Não vinha de um lugar só. Era uma mistura de fumaça, carne passada e linguiça estourada que parecia ter feito um acordo coletivo com o bairro inteiro. Fechei a janela. Não adiantou. Cheiro de Réveillon é persistente.

Quando deu dez horas, ligamos a televisão e aumentamos um pouco o volume. Não era empolgação, era defesa. Cada vizinho parecia ter escolhido um ritmo diferente, todos tocando ao mesmo tempo, como se fosse um festival sem organização nenhuma. Sertanejo brigando com eletrônico, forró tentando se impor no grito e um pagode insistente que não aceitava a troca de ano como limite.

Sentamos para a ceia. Arroz, farofa, um pedaço honesto de carne e conversa tranquila. Minha esposa comentou que estava tudo muito barulhento. Concordei em silêncio, porque não tinha mais o que fazer além de aceitar.

Faltando cinco minutos para a meia-noite, resolvi sair de novo. Erro clássico. Um foguete subiu torto, estourou baixo demais e fez metade da rua se abaixar ao mesmo tempo. Teve grito, risada e alguém xingando o céu com convicção.

Quando o relógio marcou meia-noite, brindamos ali mesmo, do nosso jeito. Desejamos saúde, porque o resto a gente corre atrás. Pensamos em ir dormir logo depois, mas ainda teve a fase dos fogos atrasados, da contagem regressiva fora de hora e dos “feliz ano novo” lançados às 00h17 com entusiasmo de quem chegou atrasado, mas não queria ficar de fora.

Fechamos o portão, apagamos a luz da sala e fomos para o quarto com o barulho ainda ecoando do lado de fora. Deitei, ouvi mais um estouro distante, ri baixinho no escuro e cheguei à conclusão mais sincera daquela noite:

— Ano novo começa mesmo é quando a gente consegue dormir.

sebastiao

Escrito Por

Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.

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