Flores na praça
Por Sebastião Silva- Publicado em
Flor costuma aparecer cedo no dia 8 de março. Às vezes no balcão da padaria, às vezes na mesa do escritório, às vezes na mão de alguém que parece ter lembrado da data poucos minutos antes de sair de casa. É uma tradição curiosa: nesse dia, o mundo parece acordar um pouco mais educado, um pouco mais atento, como se tivesse combinado de fazer um gesto coletivo de gentileza.
Eu vi essa cena logo cedo, na praça.
Uma barraca improvisada distribuía flores. Não eram rosas caras nem arranjos elaborados — eram flores simples, dessas que cabem em balde plástico com água até a metade. Algumas mulheres passavam e aceitavam com sorriso rápido. Outras agradeciam e seguiam andando com pressa. Uma senhora colocou a flor atrás da orelha e continuou conversando com a amiga como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O curioso é que o dia parecia o mesmo de sempre.
O ônibus chegou cheio, a rua estava movimentada, gente atravessava a avenida com aquele cálculo silencioso entre pressa e perigo. Uma mãe puxava o braço do filho para atravessar, duas jovens comentavam o atraso no trabalho, uma senhora equilibrava sacolas enquanto procurava sombra.
Nada ali parecia cerimônia.
Foi quando percebi que talvez esse fosse o sentido mais verdadeiro do dia. Não está nos discursos ou nos cartazes, mas na quantidade de histórias que passam pela rua sem chamar atenção.
A mulher que abre a loja antes das oito.
A que atravessa a cidade inteira para chegar ao trabalho.
A que segura a casa funcionando mesmo quando o resto do mundo parece desorganizado.
A que estuda à noite depois de um dia inteiro de responsabilidades invisíveis.
São vidas que acontecem em silêncio, sem palco, sem microfone.
Enquanto eu observava a praça, uma menina pequena recebeu uma flor e ficou olhando para ela como quem examina um objeto mágico. A mãe explicou que era “por causa do dia das mulheres”. A menina pensou um pouco e perguntou se também podia guardar a flor para a avó.
Achei bonito.
Porque talvez o dia 8 de março seja exatamente isso: um lembrete de que existem gerações inteiras de mulheres que sustentaram o mundo em silêncio para que outras pudessem caminhar um pouco mais longe.
A praça continuou cheia, o trânsito não diminuiu, o sol subiu como sobe em qualquer outro dia. As flores foram acabando devagar, uma por uma, até que restou apenas o balde vazio.
E olhando aquilo tudo, pensei que datas simbólicas são importantes, mas não deveriam ser raras.
Porque respeito não combina muito com calendário.
— o verdadeiro dia da mulher devia acontecer todos os dias em que alguém decide enxergar o valor de quem sempre manteve o mundo funcionando.
Escrito Por Sebastião Silva
Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.
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