Carne ao vento

sebastiao - carne que voa

Eu vi o vídeo sem som, e talvez por isso tenha entendido melhor. Um helicóptero pairando no céu de Aparecida, pesado, barulhento, deslocado daquele chão. Dele, pacotes de carne caíam como se fossem presentes de um deus torto, lançados sem cuidado, sem rosto, sem nome. Embaixo, gente correndo. Não por espetáculo, mas por necessidade. Quem nunca sentiu fome não entende a diferença.

A cena me lembrou histórias antigas, daquelas em que o poder sempre vem de cima. Reis que jogavam moedas para a multidão, senhores que atiravam restos aos escravos, coronéis que distribuíam favor como quem alimenta dependência. Nada ali era novo. Só o meio de transporte tinha mudado.

Helicóptero não é só máquina. É símbolo. Não pousa onde o povo pisa, não enfrenta buraco, não sente poeira. Ele observa de cima, escolhe onde parar, quando sair, quem merece atenção. Usar aquilo para “doar” comida não é gesto inocente. É mensagem. É dizer, sem palavras, que quem dá está acima, e quem recebe deve aceitar do jeito que vier.

Chamaram de ação solidária. Eu chamo de teatro. Solidariedade exige encontro, olho no olho, chão compartilhado. O que vi foi encenação de bondade, dessas que precisam de câmera, de barulho, de impacto visual. A fome virou figurante. A miséria virou argumento de marketing.

O que mais incomodou não foi a carne jogada, foi o jeito como tentaram explicar depois. Disseram que a confusão foi culpa dos pobres, que o povo não soube se comportar, que faltou organização. Como se fome fosse algo que espera fila. Como se necessidade tivesse etiqueta. Sempre arrumam um jeito de culpar quem está embaixo, mesmo quando tudo veio de cima.

Conheço esse tipo de gente. Gente que fala em mérito, em ordem, em moral, mas só enquanto isso não ameaça seus privilégios. Gente que diz ajudar, mas escolhe quem merece ser ajudado. Gente que rejeita pobre na porta do comércio, mas aceita pobre no vídeo promocional. A miséria só é tolerável quando serve de vitrine.

O silêncio das instituições pesa quase tanto quanto o barulho do helicóptero. Porque não é a primeira vez, não é um caso isolado, não é um deslize. É um padrão. Quando o abuso vem embrulhado de caridade, tudo vira zona cinzenta. Fingem que não viram, esperam a poeira baixar, apostam no esquecimento.

Mas algumas imagens não esquecem a gente. Aquela carne caindo do céu não alimentou só corpos. Alimentou algo mais perigoso: a ideia de que dignidade pode ser substituída por espetáculo. De que basta dar qualquer coisa, de qualquer jeito, para se declarar justo.

Eu desliguei o celular e fiquei pensando no chão. Sempre no chão. É nele que a vida acontece. É nele que a fome anda. É nele que a dignidade tropeça quando alguém resolve brincar de salvador sem nunca descer do próprio privilégio.

E no fim, o que ficou ecoando em mim foi uma certeza simples, dessas que não precisam de helicóptero para chegar:

— Quem transforma a miséria em espetáculo não pratica solidariedade, apenas exibe poder.

sebastiao

Escrito Por

Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.

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