Antes que transborde

Sebastiao e o Balde

O assunto começou por causa de um vazamento.

Não daqueles grandes, que alagam casa inteira, mas daqueles insistentes, que pingam devagar e fazem mais barulho pelo tempo do que pela água. Eu estava na calçada quando vi seu Agenor olhando para o relógio e para o chão ao mesmo tempo, como quem tenta decidir qual dos dois está mais errado.

— Já chamei três vezes — ele disse, sem precisar explicar para quem.

Do outro lado, encostado no portão, o vizinho respondeu com aquela calma típica de quem não tem o problema dentro de casa:

— Encanador hoje em dia é igual político, só aparece quando quer.

Eu ri baixo, mais pela comparação do que pela situação. A água continuava pingando ali, regular, paciente, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Seu Agenor então puxou a conversa para outro lado, como sempre acontece quando o problema não resolve.

Falou do preço das coisas, da conta de luz que subiu, do supermercado que parece ter vida própria. Depois comentou de um sobrinho que estava estudando para concurso, desses difíceis, de prova longa, matéria que não acaba mais.

— Diz que quer virar juiz — contou, ajeitando o boné. — Vida boa, né?

O vizinho não respondeu na hora. Ficou olhando o vazamento, acompanhando uma gota cair, depois outra.

— Boa é… — disse por fim. — Mas também é responsabilidade grande.

Fez uma pausa curta, dessas que carregam mais coisa do que parecem.

— O problema é quando a conta começa a pingar demais.

Eu entendi na hora, mas ninguém ali fez questão de explicar.

A conversa seguiu como se nada tivesse sido dito. Voltaram para o encanador que não vinha, para o preço do material, para o improviso que talvez resolvesse até o dia seguinte. O vazamento continuava, constante, sem pressa.

— Tem coisa que não é o cano que estoura — disse o vizinho, quase para si mesmo. — É o descuido.

Seu Agenor concordou com a cabeça, olhando para o chão molhado que já começava a formar um pequeno caminho pela calçada.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, só ouvindo o som da água. Ping. Ping. Ping.

Aquele tipo de som que, de tão repetido, deixa de incomodar o ouvido e passa a incomodar o pensamento.

Antes de ir embora, vi seu Agenor pegar um balde e colocar embaixo do vazamento. Não resolveu o problema, mas pelo menos deu direção para a água.

E eu pensei, enquanto seguia meu caminho:

— Tem coisa que não dá para fingir que não está vazando… porque uma hora a conta transborda.

sebastiao

Escrito Por

Aos 65 anos, Sebastião carrega nas mãos a memória de uma cidade inteira. Chegou em Aparecida no fim dos anos 70, quando tudo ainda era barro e promessa. Foi serralheiro por décadas até se aposentar — cada portão, cada grade, um pedaço da sua história. Entre a missa e o noticiário, não se cala: cobra, opina, representa quem construiu Aparecida com suor.

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